Projeto transfronteiriço Rotas da Raia Ibérica une Figueira de Castelo Rodrigo a Salamanca

Um ciclo de caminhadas entre Portugal e Espanha quer atrair visitantes ao Interior e valorizar o território da Raia Ibérica, num contexto de crescimento do turismo de Natureza.
Mariana Moniz
Mariana Moniz Jornalista
13 abr. 2026, 08:00

O interior quer afirmar-se como destino turístico, mas nem todas as iniciativas conseguem ir além da intenção. O novo ciclo de caminhadas “Rotas da Raia Ibérica”, que liga Figueira de Castelo Rodrigo a Salamanca, nasce com a ambição de valorizar o território transfronteiriço, num momento em que o turismo de Natureza ganha força.

O projeto, que arranca a 18 de abril, consiste num ciclo de caminhadas com várias etapas ao longo do ano, alternadas entre Portugal e Espanha, atravessando locais como a Serra da Marofa, Mata de Lobos ou Ciudad Rodrigo. A iniciativa junta desporto, património e cooperação ibérica, procurando atrair visitantes e envolver a comunidade local.

Em conversa com o Conta Lá, o presidente da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo, Carlos Condesso, enquadra a iniciativa como uma aposta estratégica no território. “O objetivo principal passa por promover o turismo de natureza de forma alinhada, atraindo mais gente para o território e dando a conhecer a região como um destino de excelência”, afirma, defendendo que esta articulação poderá gerar “um aumento estruturado de visitantes”. Ainda assim, o projeto não apresenta, para já, metas quantificadas ou indicadores concretos de avaliação.

Crescimento existe, mas não basta organizar eventos

O contexto joga a favor deste tipo de iniciativas. Em entrevista ao Conta Lá, Jorge Costa, presidente do Instituto de Planeamento e Desenvolvimento do Turismo (IPDT), confirma que “os dados de hóspedes, dormidas e proveitos turísticos em regiões do interior e de menor densidade apontam para uma tendência clara de maior procura”, associada à valorização de experiências mais autênticas e ao contacto com o território.

Mais do que um segmento isolado, o turismo de natureza integra hoje uma mudança mais profunda na forma de viajar. “É o turismo do ‘parar’, do ‘observar’ e do ‘viver o lugar’, onde a experiência deixa de ser apenas consumida e passa a ser sentida de forma mais profunda”, explica Jorge Costa, sublinhando uma procura crescente por bem-estar, desaceleração e reconexão.

Ainda assim, o especialista deixa um aviso claro, que contrasta com a ambição do projeto: iniciativas como caminhadas organizadas podem atrair visitantes, mas tendem a ter “um impacto mais limitado e pontual” quando não estão integradas numa estratégia estruturada. Para gerar resultados consistentes, defende, é necessário garantir continuidade, articulação com outros produtos turísticos e uma promoção consistente.

Interior com potencial, mas preso a desafios estruturais

A aposta no turismo surge, em muitos territórios do interior, como uma oportunidade de desenvolvimento. No caso da Raia Ibérica, o potencial é evidente entre património natural preservado, menor pressão turística e uma identidade cultural própria. No entanto, estes fatores não são suficientes por si só.

Segundo Jorge Costa, estas regiões enfrentam limitações significativas. São exemplo os problemas de acessibilidade, a falta de infraestruturas ou até as dificuldades em atrair investimento e recursos humanos qualificados, além de uma baixa notoriedade internacional face a destinos como Lisboa, Porto ou Algarve.

A sustentabilidade, frequentemente associada a este tipo de projetos, exige igualmente mais do que discurso. “Não basta tratar-se de um território de baixa densidade para que se afirme como destino sustentável. É necessário um trabalho estruturado, contínuo e mensurável, com planeamento, definição de indicadores e monitorização de impactos”, alerta. O responsável sublinha ainda a importância de processos exigentes e verificáveis, evitando abordagens meramente comunicacionais associadas à sustentabilidade, frequentemente próximas do chamado greenwashing.

Neste contexto, a cooperação com Espanha surge como uma oportunidade relevante, não só pela valorização conjunta do território, mas também pelo peso do mercado espanhol, que em 2025 representou cerca de 2,3 milhões de hóspedes, 5,2 milhões de dormidas e aproximadamente 2,9 mil milhões de euros em receitas turísticas.

Entre ambição e execução, o futuro decide-se no terreno

Para já, o projeto “Rotas da Raia Ibérica” avança com a promessa de continuidade e com um calendário que se estende até outubro, culminando no Camino de Hierro, no Parque Natural das Arribas do Douro. A organização aposta na cooperação institucional e na valorização da paisagem como fatores diferenciadores, procurando afirmar uma experiência que cruza natureza, cultura e identidade ibérica.

Ainda assim, o verdadeiro teste começa depois das primeiras caminhadas. O potencial está identificado e o interesse pelo turismo de natureza é real, mas o impacto dependerá da capacidade de transformar a iniciativa em algo mais do que ações pontuais.

Entre o discurso político e a análise técnica, fica uma linha de tensão difícil de ignorar. A promessa de um “aumento estruturado de visitantes” contrasta com o alerta de que, sem estratégia, continuidade e medição de resultados, o impacto pode ser apenas temporário. No interior, mais do que atrair pessoas, o desafio está em criar turismo que fique e que transforme o território.